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Recursos Educacionais Abertos: Novas Perspectivas para a Inclusão Educacional Superior via EAD

Module by: Andreia Inamorato dos Santos. E-mail the author

Summary: Chapter from the book `Perspectivas Internacionais em Ensino e Aprendizagem Online - debates, tendências e experiências`, de Andreia Inamorato dos Santos (org), 2006, Sao Paulo, Editora Libra Três, p. 35-41

Recursos Educacionais Abertos: Novas Perspectivas para a Inclusão Educacional Superior via EAD

Andreia Inamorato dos Santos

Institute of Educational Technology – IET

The Open University – Reino Unido

Introdução

A questão da inclusão educacional está tomando um lugar cada vez mais importante nas agendas educacionais internacionais. A cada dia, há uma maior percepção de que, por meio do acesso à educação, é possível promover o desenvolvimento sustentável de uma nação. Não somente no Brasil como também na Inglaterra, a questão da inclusão educacional vem assumindo vertentes convergentes: o acesso a universidades abertas, programas de formação continuada e recursos educacionais abertos são algumas delas.

O facilitador dessa crescente inclusão educacional é a tecnologia. Tecnologia no sentido literal da palavra: “modo de fazer”. Essa tecnologia pode ser desde a mais simples transmissão via rádio ou TV e distribuição de materiais impressos até as tecnologias mais refinadas, como a internet, a videoconferência e os ambientes de aprendizagem virtuais. O papel da tecnologia na educação inclusiva é facilitar o acesso dos estudantes ao conhecimento, de acordo com as necessidades e possibilidades locais de cada país, de cada região.

Os Recursos Educacionais Abertos representam mais uma possibilidade da democratização do acesso à educação superior gratuita. Por meio do uso da tecnologia (internet, wikis, ambientes de aprendizagem virtuais), já é possível disponibilizar conteúdos educacionais na web de forma a serem acompanhados de todos os recursos necessários para o seu uso didático, oferecendo também a possibilidade da sua adaptação e tradução, para que sejam reutilizados em diversos contextos educacionais.

O objetivo deste capítulo é discutir como a inclusão educacional pode ser promovida pelo uso eficaz dos recursos educacionais abertos, os quais, por intermédio da tecnologia aplicada à educação, facilitam o acesso ao conhecimento para um número crescente de pessoas no Brasil e no mundo.

As várias formas de inclusão educacional superior

O Brasil é um país que ainda tem um acesso restrito de estudantes à educação superior. De acordo com os dados estatísticos do IBGE1/PNAD2 2004, apenas 10,5 % da população brasileira, com idade entre 18 e 24 anos, tem acesso à educação universitária, número inferior aos da Bolívia (20,6%), da Argentina (40%) e do Chile (20,6%), por exemplo (Mota, Filho e Cassiano, 2006). Os autores destacam que os principais motivos para esse baixo índice são a evasão escolar no ensino médio, as dificuldades econômicas enfrentadas pelos estudantes, bem como a concentração da oferta de vagas em apenas 30% dos municípios do País. Portanto, a oferta da educação superior por meio da modalidade a distância constitui um fator que ampliará a oportunidade de acesso dos estudantes residentes em localidades mais distantes dos grandes centros urbanos do Brasil.

O Reino Unido pode ser usado com um exemplo de como a educação a distância (EAD) tem um papel importante na inclusão educacional de um país. O número de alunos matriculados no ensino superior (tradicional e a distância) cresceu significativamente nas décadas de 80 e 90 (30%), e continua crescendo, atualmente a uma média de 35%. O objetivo é de que o país atinja o marco de 50% da população com idade entre 18 e 30 anos cursando educação universitária até 2010 (Higher Education in the United Kingdom, 2005). O objetivo da educação universitária no Reino Unido, de acordo com o Higher Education Funding Council for England (HEFCE, 2005), é :

● capacitar as pessoas a desenvolverem suas habilidades e a atingirem seu potencial, tanto pessoal quanto no trabalho;

● avançar o conhecimento, por meio do estudo e da pesquisa;

● contribuir para uma nação economicamente bem sucedida e culturalmente diversificada.

Sendo assim, todas as formas de educação superior, sejam elas presenciais ou a distância, são importantes para que esses objetivos sejam alcançados no país. Um dado importante é que a idade dos alunos que freqüentam a educação superior no Reino Unido mudou consideravelmente nos últimos anos. A maioria dos alunos eram jovens que acabaram de completar a educação secundária e costumavam estudar em período integral, visando a assim continuarem no ensino superior. Atualmente, a população de estudantes inclui um grande número de alunos adultos, que freqüentam o ensino superior em meio período. Esses alunos, no geral, precisam trabalhar para pagar seus estudos e encontram na educação a distância, principalmente a ofertada pela Open University, uma boa alternativa para conciliarem suas vidas profissional e familiar com os estudos (Santos, 2006). Em 2004/05, 81% da população de estudantes de educação superior no Reino Unido precisou recorrer a algum tipo de empréstimo (crédito educativo, geralmente) para poder financiar seus estudos. Os valores chegaram a £3.390,00 (libras esterlinas) por aluno (Statistics of Education, 2005). O fato de concluir a educação superior com dívida cumulativa ao longo dos anos tem feito com que os alunos optem por estudar meio período e a distância.

Nesse sentido, a educação a distância assume um papel cada vez mais importante no Reino Unido para a inclusão educacional superior, pois permite que os jovens ingressem mais cedo no mercado de trabalho (como já acontece no Brasil), ao mesmo tempo em que estudam para se profissionalizar. Permite também que o estudante adulto concilie o trabalho, os estudos e a família. Além disso, a educação superior no Reino Unido é parte integrante do programa de “educação continuada” – que se estende ao longo da vida profissional do aluno, ou até após a sua aposentadoria, não se limitando aos anos escolares compulsórios ou tradicionais. Entende-se como educação superior no Reino Unido, portanto, os cursos tradicionais e os cursos voltados para a profissionalização, com duração inferior a 3 anos e que não seguem o currículo formal de um curso universitário. Nessa categoria encontram-se os cursos chamados “work-based learning”, ou seja, cursos que incluem a prática profissional do aluno como parte de seus estudos acadêmicos.

A educação continuada e profissionalizante, bem como a educação aberta e a distância constituem os programas educacionais mais diretamente relacionados com a democratização do acesso ao ensino superior. A educação superior hoje em dia caracteriza-se pela necessidade de uma “flexibilidade”, oriunda da necessidade de atender a um mercado global que exige uma mão-de-obra mais qualificada e à demanda de uma população de alunos mais exigente e consciente de suas necessidades e de seus direitos.

No Brasil, assim como no Reino Unido, também existe uma meta para ser atingida em termos do acesso à educação superior. O Plano Nacional de Educação (PNE – Lei 10.721/01), estabeleceu a meta de atender 30% dos jovens de 18 a 24 anos até 2011 (Mota, Filho e Cassiano, 2006). A criação do Sistema Universidade Aberta do Brasil, programa concebido em 2005 e inaugurado em 2006 pela Secretaria de Educação a Distância do Ministério da Educação, significa a possibilidade de que essa meta seja alcançada. O mais interessante desse programa é que os cursos são oferecidos gratuitamente, de forma semipresencial, fazendo com que as limitações financeiras da maioria dos alunos brasileiros não sejam um empecilho para o seu acesso à educação universitária e à formação continuada.

A EAD como forma de aprendizagem flexível no contexto da inclusão educacional

A aprendizagem flexível, termo que pode ser utilizado em contextos educacionais diferenciados, é uma das respostas às necessidades da sociedade atual na questão da provisão educacional superior. Aprendizagem flexível é um termo complexo, que não possui uma única definição. Ele já foi definido com muitas agendas diferentes em mente: políticas, pedagógicas, teóricas, práticas e técnicas (Jákupec, 1997). Porém, existe um aspecto recorrente nessas várias definições: o de que a aprendizagem flexível é uma ação com propósito específico, tomada pelo sistema de educação superior e por instituições de treinamento, a fim de atender aos novos desafios econômicos (Garrick e Jákupec, 2000). Ellington (1997), por sua vez, define a aprendizagem flexível com um enfoque na inclusão educacional, da seguinte forma:

O termo Aprendizagem Flexível tem sido usado como um termo de inclusão nos últimos vinte anos, incorporando as abordagens inovadoras em ensino e aprendizagem, que oferecem ao estudante alguma forma de controle sobre o seu processo de aprendizagem.

Para Ellington, portanto, todas as tecnologias da educação podem ser consideradas formas de aprendizagem flexível, pois possibilitam de alguma forma o controle do aluno, seja no horário de estudar, seja no local de acesso ao conteúdo do curso, seja, em alguns casos, até mesmo na escolha do que estudar mediante o currículoproposto.

Para Garrick e Jákupec (2000), a aprendizagem flexível é vista pelas instituições de ensino e treinamento como um veículo para atender às atuais questões políticas, sociais, econômicas, tecnológicas e culturais causadas pelas forças da globalização. Em termos educacionais, para os autores, essas questões podem ser analisadas em cinco pontos principais: 1) os setores de educação e treinamento estão operando, cada vez mais, em um sistema de mercado competitivo; 2) há uma grande expectativa das organizações e dos indivíduos de terem acesso aos novos desenvolvimentos na área das tecnologias da informação e comunicação (TICs); 3) há a necessidade de que os indivíduos se ajustem às mudanças no ambiente de trabalho e nas práticas de aprendizagem; 4) as reformas nos ambientes de trabalho acontecem constantemente com o objetivo de aproveitar as melhorias da organização do trabalho e das novas tecnologias e 5) a educação e a indústria estão se globalizando cada vez mais, e as indústrias e instituições estrangeiras estão crescentemente adentrando os mercados nacionais (Garrick e Jákupec, 2000). Nesses cinco pontos, fica evidente o papel da educação como forma de preparo para o mercado de trabalho e para a sociedade global. Nesse sentido, estudar de forma “flexível” permite atender às necessidades individuais, nacionais e globais da sociedade baseada no conhecimento. A EAD é uma forma de aprendizagem flexível, que visa a atender a necessidade de acesso à educação, com o intuito de formar cidadãos com senso crítico e capacitados para atuar no mercado de trabalho nacional e global.

A questão da “qualidade” na EAD

Knight (2006) aponta alguns “sinais de qualidade” que podem ser usados para melhorar os cursos que são ofertados on-line e a distância. Sua análise também procede sob cinco perspectivas: pedagogias, alcance de metas complexas, conceitos mutáveis de qualidade, desenhos para reutilização e novas parcerias. Segundo Knight, as noções de “qualidade” em educação a distância não mudaram significativamente nos últimos anos, porém foram complementadas por perspectivas que atendem às necessidades da sociedade contemporânea.

Em relação às pedagogias utilizadas, para Knight, assim como para Walker e Schaffarzick (1974), o que conta como “qualidade” depende daquilo que esperamos como resultado do processo de ensino-aprendizagem. Nesse sentido, o mérito de qualidade vai para cursos que privilegiem cinco processos cognitivos, isto é, cursos que utilizem pedagogias que façam com que os estudantes lembrem, compreendam, analisem,avaliem e criem, por meio das novas tecnologias e da colaboração com outros estudantes a distância. Afinal, essas são algumas das habilidades mais desejáveis no mercado de trabalho, tanto pelos empregadores quanto pelos próprios recém-formados.

A segunda questão abordada por Knight no fator qualidade em EAD é o alcance de metas complexas. Ele expande os objetivos cognitivos apresentados, incluindo outros fatores essenciais que a educação superior visa a abordar: a capacidade dos estudantes de tomarem decisões, de adquirirem habilidades práticas, de utilizarem um raciocínio metacognitivo e de avançarem o conhecimento por meio do estudo e da pesquisa. Tudo isso pode ser entendido como o alcance de metas complexas. Para Knight, esses fatores não são “habilidades”, pois não podem ser medidos, mas são “alcances”. Estimular esses alcances no ensino superior por meio da EAD é uma meta importante para aumentar a empregabilidade dos estudantes, que, por meio da inclusão educacional, poderão então buscar uma inclusão social mais abrangente, com trabalho digno, especializado e remunerado.

O terceiro fator abordado por Knight (2006) diz respeito aos conceitos mutáveis de qualidade em EAD. Ele reforça a idéia de que o conceito de qualidade “difere” em contextos específicos, para objetivos específicos. Por exemplo, o conceito de qualidade em cursos a distância de pós-graduação, que têm como público-alvo profissionais que querem aumentar sua especialização, incentiva a utilização de atividades que visem a aprimorar as habilidades já existentes dos estudantes, por meio do engajamento dos mesmos em discussões e trocas de experiências. Outra forma de avaliar a qualidade de um curso é analisar até que ponto ele permite a personalização dos serviços oferecidos pelo ambiente de aprendizagem virtual, permitindo maior conectividade entre os alunos, ao mesmo tempo em que propicia a percepção da presença do “eu” e do “outro” em um ambiente virtual. O uso de tecnologias mais avançadas deve ser incentivado, pois permite essa maior conectividade. Certamente, isso deve também levar em conta as limitações contextuais dos alunos, sejam de ordem financeira ou de acesso.

Nos dois últimos pontos abordados sobre a questão da qualidade em EAD, Knight (2006) enfoca a reutilização de materiais e as novas parcerias. A reutilização de materiais disponibilizados na web gratuitamente já é uma realidade. Eles são conhecidos como Recursos Educacionais Abertos. Na próxima seção deste capítulo, começo a tratar desse assunto com mais detalhes. Já quanto às novas parcerias, elas refletem a necessidade de adaptação das universidades a uma realidade que afetará a todos: a web 2.0. O’Reilly (2005) enfatiza que a web 2.0 traz novas idéias sobre qualidade e desafia os modelos de negócios educacionais on-line. Segundo Reilly, atualmente o enfoque das universidades é no “produto”, mas até 2010 deverá ser no “serviço e no suporte” ao aluno e aos clientes. Por exemplo, um dos grandes sistemas de busca de informação na internet, o Yahoo, planeja organizar toda a informação disponível nas melhores bibliotecas do mundo e na web em geral para que ela se torne universal e acessível de forma rápida e segura pela internet. As universidades, portanto, tenderão a agregar valor aos seus cursos por meio dos serviços prestados ao estudante. Ao mesmo tempo, provavelmente precisarão diminuir o custo dos mesmos, uma vez que as práticas on-line da sociedade atual têm um crescente caráter participativo, aberto e democrático.

Recursos Educacionais Abertos: promovendo a Aprendizagem Aberta e Flexível

Recursos Educacionais Abertos são definidos por Roll (2005, apud Stover, 2005) como “estratégias para aumentar o acesso a materiais educacionais eletrônicos”. Significa disponibilizar na web, por meio de websites educacionais, conteúdos de cursos especificamente desenhados para serem oferecidos on-line, porém de forma gratuita, podendo incluir texto, som e imagem. Além disso, esses materiais poderão ser usados e reutilizados de diversas formas: por meio de modificações de estilo e conteúdo, acréscimo de informações, traduções e versões, bem como poderão ser utilizados de forma institucional ou coletiva, por indivíduos interessados em um determinado conteúdo e que desejem criar uma “comunidade de aprendizagem” sobre tal tema de interesse.

Os Recursos Educacionais Abertos (REAs) também são chamados de Conteúdos Abertos. Os objetivos educacionais dos conteúdos abertos são vários, mas considero os principais: o acesso livre à informação concebida para promover a aprendizagem, a oferta de cursos de qualidade para cidadãos em qualquer lugar do mundo que tenham acesso à internet, a oportunidade para a construção do saber de forma colaborativa, o uso da tecnologia na promoção da inclusão educacional.

A web contém muita informação, mas nem toda informação é oferecida de forma a estimular a aprendizagem. Um dos objetivos da oferta de Recursos Educacionais Abertos é que os indivíduos possam utilizar a informação da web para “aprender”. Portanto, o que se espera encontrar nos websites educacionais de instituições ou pessoas que se proponham a oferecer conteúdos abertos é algo diferente de apenas “disponibilizar” a informação. Ela deve vir acompanhada de uma concepção pedagógica, assim como das tecnologias necessárias para dar apoio à aprendizagem. O uso de ambientes de aprendizagem virtuais (como Moodle ou Teleduc, por exemplo), ou de tecnologias de videoconferência, blogs, wikis, fóruns de discussão e ferramentas de mapeamento de informações é um fator diferencial em relação à mera disponibilização da informação on-line, que permitirá que as pessoas interajam com o conteúdo e criem comunidades de aprendizagem colaborativas.

O desenho pedagógico e o uso das tecnologias de informação e comunicação (TICs) são fatores que promovem a qualidade dos conteúdos oferecidos de modo aberto. A criação do desenho pedagógico exige que haja pedagogos responsáveis pelo desenho instrucional, e que sejam capazes de sugerir as tecnologias mais adequadas a serem utilizadas para a facilitação da aprendizagem. Ainda na questão da qualidade, os cinco pontos abordados por Knight (2006) como fatores que indicam qualidade estão presentes no uso de recursos educacionais abertos, na medida em que: 1) apresenta um novo paradigma pedagógico para a educação superior a distância; 2) estimula o alcance de metas individuais, ou coletivas, de aprendizagem; 3) estimula diferentes padrões de qualidade, na medida em que traz à tona a pergunta “O que é “qualidade” em contextos variados?”; 4) incentiva a reutilização de materiais educacionais e 5) possibilita a formação de parcerias para a criação e disponibilização dos conteúdos abertos.

As TICs, portanto, ajudam o usuário (neste caso, o aprendiz) a interagir com o conteúdo de modo a “fazer sentido”. A questão do acesso à informação também é outro fator que ressalta a importância dos REAs. Pode-se dizer que os conteúdos abertos promovem um acesso quase que totalmente democrático ao conhecimento, digo “quase” porque, apesar de gratuito, ainda haverá aqueles que serão excluídos por não terem acesso à infra-estrutura mínima ou habilidade para usufruir dos benefícios dos recursos tecnológicos: energia elétrica, hardware ou alfabetização, por exemplo. Ainda assim, há a possibilidade de criação de “comunidades de aprendizagem” com as pessoas menos favorecidas, sob a liderança de um professor, por exemplo, ou até mesmo de ONGs que se proponham a utilizar os conteúdos abertos para ampliar o acesso ao conhecimento dessas comunidades mais carentes.

A construção do saber de forma colaborativa é propiciada nesse contexto pelo uso adequado das TICs para fins educacionais. Tecnologias de videoconferência, blogs e wikis são as tendências (definidas por O’Reilly, 2005, como os novos paradigmas da web 2.0) de ferramentas de colaboração e de construção do saber on-line. No ensino superior, a disponibilização desses recursos permitirá o acesso ao conhecimento de forma inclusiva, porém não-certificada. Isso, de certa forma, poderá levar ao questionamento da importância da emissão de certificados para sancionar a aprendizagem. Talvez a tendência seja a criação de portfolios individuais, nos quais os indivíduos farão o gerenciamento de suas atividades de educação continuada e apresentarão aos possíveis empregadores as atividades nas quais estão envolvidos. De qualquer maneira, as instituições de ensino superior poderão canalizar esses recursos abertos para atrair estudantes para as suas próprias instituições, os quais fariam então o curso com um processo avaliativo, de forma a obter uma certificação. Litto (2006) faz o seguinte comentário sobre o uso de REAs:

Acredito que estamos indo, com cada vez mais velocidade, a uma sociedade na qual o sistema educacional formal, convencional, preso a modelos ultrapassados de ensino e aprendizagem, aos poucos será substituído em grande parte por um sistema não-formal, adaptável, flexível e diretamente ligado aos interesses individuais de quem quer aprender. Com OERs 3 disponibilizando gratuitamente quase todo o conhecimento moderno essencial, em forma textual, visual e sonora, e sob demanda, a aprendizagem não-formal, na hora certa, tenderá a ficar maior do que o antigo sistema formal e convencional.

Duas das maiores iniciativas internacionais em recursos educacionais abertos são o MIT OpenCourseWare (Universidade de Massachussetts, EUA – http://ocw.mit.edu/index.html) e a Open Content Initiative (OCI - The Open University – Reino Unido - http://oci.open.ac.uk), conhecido como OpenLearn (Santos & Okada, 2006). Outras iniciativas na China, Japão, França e Vietnã, por exemplo, também estão em andamento, porém em menor escala. O MIT OpenCourseWare permite o acesso livre aos materiais dos seus cursos por meio do seu website. A iniciativa da Open University do Reino Unido, por sua vez, tem lançamento previsto para outubro de 2006, e contará com cursos em diversas áreas do conhecimento. O projeto disponibilizará ao usuário o suporte de tecnologias de aprendizagem, como ferramentas de videoconferência e a plataforma Moodle, que foi adaptada especificamente para este projeto da Open University. O objetivo principal dessa iniciativa é o de:

Desenvolver os métodos de distribuição de conteúdo aberto e tecnologias, por meio do emprego de ferramentas de aprendizagem de última geração para o apoio ao aluno, incentivando a criação de comunidades não-formais de aprendizagem colaborativa e, ao mesmo tempo, contribuindo para o avanço do conhecimento internacional baseado em pesquisa sobre as pedagogias modernas voltadas à educação superior. (Open Content Initiative, 2006).

Para que a oferta de conteúdos abertos na Open University torne-se realidade, a William and Flora Hewllet Foundation patrocina esse projeto com um investimento inicial de £6,65 milhões (libras esterlinas). A inovação do website OpenLearn é que os usuários terão dois ambientes de trabalho: o LabSpace, que é onde o usuário (ou aprendiz) pode acessar o conteúdo disponível para fazer seu download e discutir e reformular esse conteúdo, o qual será então analisado por revisores (usuários e/ou funcionários do projeto) para que as modificações sejam aceitas e disponibilizadas no outro ambiente, o LearningSpace. Este último, por sua vez, é o local no qual os usuários têm acesso à informação, ou seja, ao conteúdo em si, e podem utilizar as ferramentas de aprendizagem. O LabSpace, como o próprio nome diz, é o laboratório de experiências com o conteúdo, permitindo sua reutilização para vários outros contextos.

No Brasil, a criação e disponibilização de Recursos Educacionais Abertos em grande escala ainda está por vir. Com a ampliação do sistema de educação superior a distância por meio da Universidade Aberta do Brasil (UAB), cresce a possibilidade de que conteúdos abertos sejam criados pelas universidades federais que pertencem ao sistema UAB e, portanto, colaborem ainda mais para a democratização do acesso à educação superior, seja ela formal ou informal.

A questão de copyright na utilização de REAs

A criação e utilização/reutilização de REAs se enquadram sob a perspectiva das licenças de uso mais flexíveis. Segundo Mantovani, Dias e Liesenberg (2006), as licenças de uso mais flexíveis têm por objetivo “permitir uma prática mais democrática e criativa, que faculte e não iniba a inovação na criação de bens culturais”. Dentre as iniciativas de licenças de uso mais flexíveis, destaca-se a “Creative Commons Licensing”. A Creative Commons é uma organização sem fins lucrativos que oferece licenças de direitos autorais flexíveis para trabalhos criativos (http://creativecommons.org/). Uma licença da Creative Commons permite que o autor mantenha seus direitos autorais ao disponibilizar conteúdo na web, ainda assim permitindo que as pessoas copiem e distribuam esse conteúdo. Porém, o usuário desse conteúdo, ao reutilizá-lo, deve atribuir crédito ao autor, respeitando algumas restrições especificadas na licença da obra, como, por exemplo, a permissão para o uso comercial da mesma ou a sua modificação. Obras que se enquadram nessa licença, em vez de terem “todos os direitos reservados”, passam a ter “alguns direitos reservados”. Existe também a possibilidade de oferecer a obra sem nenhuma condição, colocando-a em domínio público. Porém, esta modalidade não se aplica a obras que estejam sob a jurisdição brasileira, somente estrangeiras, como no caso dos Estados Unidos, por exemplo. No Brasil4, essa modalidade de licença de domínio público não tem efeitos legais, mas todas as outras modalidades de licença da Creative Commons podem ser utilizadas com total validade (http://creativecommons.org/license/publicdomain-2).

A licença da Creative Commons baseia-se nas estratégias do movimento de software livre (Mantovani, Dias e Liesenberg, 2006), que utiliza as leis de direitos autorais de forma mais flexível, uma vez que deixam para o autor a prerrogativa de estabelecer as condições de uso de sua obra como preferir.

Conclusão

Iniciei este capítulo discutindo como o Brasil ainda apresenta baixos índices de acesso à educação superior, se comparado ao Chile, Argentina e Bolívia, por exemplo. Países desenvolvidos, como o Reino Unido, atingem hoje um índice de aproximadamente 35% da sua população adulta cursando a educação superior, visando a atingir o marco dos 50% até 2010. No Brasil, espera-se que pelo menos 30% dos jovens de 18-24 anos tenham acesso à educação superior até 2011. Um dos grandes empreendimentos para que essa meta seja alcançada é a criação do Sistema Universidade Aberta do Brasil, que oferece vagas na educação superior a distância (semipresencial) gratuitas, para indivíduos residentes em todas as regiões do País.

Em seguida, discuti como a EAD favorece a inclusão educacional no ensino superior por ser uma forma de educação flexível, que se utiliza das tecnologias da informação e comunicação (TICs) a favor de projetos educacionais a distância, proporcionando a colaboração entre os indivíduos na construção de sua aprendizagem. A educação continuada, profissionalizante e baseada no trabalho são outras perspectivas educacionais nas quais a EAD pode ter um papel bastante significativo para promover a ampliação do acesso ao conhecimento.

Outro fator abordado foi a questão da qualidade em EAD na educação superior, que, segundo Knight (2006), tem várias vertentes: a questão pedagógica, o alcance de metas complexas, os conceitos mutáveis de qualidade, as concepções para reutilização de conteúdos e a necessidade de novas parcerias. No âmbito dos dois últimos temas apresentados por Knight, passei a discutir as tendências na utilização de conteúdos educacionais abertos no contexto educacional internacional e as possibilidades de seu uso no contexto nacional.

Minha intenção foi ressaltar que está se iniciando um momento de superar as barreiras remanescentes que impedem o acesso democrático à educação superior no Brasil. As novas políticas educacionais de acesso à educação superior via EAD, bem como a preocupação com a qualidade dos cursos e materiais oferecidos on-line são demonstrações de que a EAD é uma modalidade de educação apta a forjar maior inclusão educacional superior no Brasil e no mundo.

Porém, para que isso se torne uma realidade para todos, é necessário garantir que toda a população tenha acesso aos tais conteúdos abertos, seja por meio do uso da web para os que têm esse privilégio, seja por intermédio de universidades, ONGs e indivíduos que estejam engajados na criação de uma sociedade mais justa e democrática.

Referências

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GARRICK, J. & JÁKUPEC, V. (2000) “Flexible learning, work and human resource development”. In: V. Jákupec and J. Garrick (eds) Flexible Learning, Human Resource and Organisational Development – putting theory to work. London: Routledge

JÁKUPEC, V. (1997) “Guest Editorial”, Studies in Continuing Education, 19, 2:95-99

KNIGHT, P. (2006) “Quality, enhancement and on-line distance education courses and programmes”. Keynote na Conferência Mundial do Conselho Internacional de Educação Aberta e a Distância (ICDE 22), organizado pela Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED), Rio de Janeiro, 3-6 de setembro. No prelo.

LITTO, F. (2006) “A nova ecologia do conhecimento: conteúdo aberto, aprendizagem e desenvolvimento”, in: Inclusão Social, Brasília, v.1, n.2, p. 73-78, abr./set/ 2006. Disponível em: http://www.ibict.br/revistainclusãosocial/viewarticle.php?id=32&layout=html . Acessado em 17/08/06

MANTOVANI, O., DIAS, M. & LIESENBERG, H. (2006) “Conteúdos abertos e compartilhados: novas perspectivas para a educação”, In: Educ. Soc., Campinas, V.7, n.94, p. 257-276, jan./abr. 2006. Disponível em http://www.cedes.unicamp.br. Acessado em 17/08/06

MOTA, R., FILHO, H. & CASSIANO, W. (2006) “Universidade Aberta do Brasil: democratização do acesso à educação superior pela rede púublica de educação a distância”. In: Desafios da Educação a Distância na Formação de Professores. Ministério da Educação, Brasília: Secretaria de Educação a Distância

O’REILLY, T. (2005) “What is WEB 2.0 – Design Patterns and Business Models for the Next Generation of Software”. Disponível em: www.oreillynet.com/go/web2, acessado em 17/08/06

SANTOS, A. (2006) “A Universidade Aberta Britânica: aberta às pessoas, lugares, métodos e idéias”. In: Desafios da Educação a Distância na Formação de Professores.Ministério da Educação, Brasília: Secretaria de Educação a Distância

SANTOS, A & OKADA, A. (2006) “Discussing International Perspectives in Open Learning in the Brazilian Scenario: Educational Politics and Pedagogical Principles”, Artigo do Mini-curso oferecido sob o mesmo título na Conferência Mundial do Conselho Internacional de Educação Aberta e a Distância (ICDE 22), organizado pela Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED), Rio de Janeiro, 3-6 de setembro. No prelo

STOVER, C. (2005) “World Conference Calls for Open Educational Resources”, in: Distance Education Report (June 15th 2005), Madison: Magna Publications Incorporation

Webografia

Creative Commons: http://creativecommons.org e

http://creativecommons.org/licence/publicdomain-2

Higher Education in the United Kingdom (HEFCE) http://www.hefce.ac.uk

MIT OPenCourseWare: http://ocw.mit.edu/index.html

Open Content Initiative: http://oci.open.ac.uk

Statistics of Education (2005 edition). Department for Education and Skills

(http://www.dfes.gove.uk/rsgateway)

Footnotes

  1. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
  2. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios
  3. Nota da autora: OERs, do inglês, significa Open Educational Resources (Recursos Educacionais Abertos)
  4. A Faculdade de Direito da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro é a representante da Creative Commons no Brasil.

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